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Sobre o estado do país... em 2011

por João Miguel Tavares, em 01.01.14

No final de 2011, fui convidado para orador da conferência anual da APCER, num hotel de Óbidos, com o objectivo de fazer uma espécie de balanço do estado do país. Hoje, ao andar à procura de uns textos antigos no computador, encontrei o texto da minha intervenção. É bastante longo, mas gostei de o reler, parece-me actual e mais de dois anos depois não retirava uma vírgula ao que ali está escrito. Aqui fica ele:

 

1.     A crise.

 

A maior prova de que o país está realmente em crise é que me disseram que o ano passado o orador convidado desta conferência tinha sido o professor Marcelo Rebelo de Sousa - e neste momento estou aqui eu. Lamento muito. O Dr. José Leitão já me garantiu que eu fui mesmo a primeira escolha, mas ninguém me convence que irem ser obrigados a ouvir-me durante 45 minutos não faça parte de uma dura medida qualquer que foi imposta pela troika.

 

Foi-me pedido para falar um pouco do estado do país, mas aproveitando o facto de a minha mulher ter ficado em Lisboa e de eu precisar de desabafar, queria começar por falar dela. Nós temos três filhos, de três, cinco e sete anos, e estamos sozinhos em Lisboa, porque eu sou de Portalegre e ela é de Castelo Branco e os nossos pais não vivem por perto. Donde, a nossa vida é sempre um grande animação, sobretudo aquelas manhãs loucas em que é preciso correr para os pôr a tempo na escola.

 

A minha mulher é médica e muitas vezes faz bancos à noite. Quando está de banco, e como tem uma opinião muito baixa das minhas capacidades para escolher o guarda-roupa das crianças ou para decidir aquilo que elas devem comer ao lanche, deixa-me tudo criteriosamente organizado por montinhos e às vezes com post-its, ao ponto de as minhas manhãs quando ela não está parecerem uma linha de montagem da Autoeuropa: é só ensacar a comida nas malas e os miúdos nas respectivas roupas.

 

Quando eu estou sozinho, portanto, chego sempre impecavelmente a horas à escola, apesar de não ter ajuda e estar geralmente sem carro e ser obrigado a ir de metro. Já quando a minha excelentíssima esposa está em casa… instala-se o caos. Eu estou à espera que ela faça e ela está à espera que faça eu, como somos dois parece que o tempo estica quando na verdade encolhe, é como se nos atrapalhássemos um ao outro.

 

Ela põe-se a fazer a cama dos miúdos e a meter a máquina de lavar roupa a trabalhar, eu pergunto-lhe se ela acha mesmo que aquela é a altura certa para fazer aquilo, porque raio é que ela não percebe que a prioridade é enfiar os putos na escola, ela basicamente acha que eu sou um parasita que só quer sopas e descanso, e no final acabamos a discutir. O resultado é a Carolina (a minha filha mais velha, a única que já está na primária) chegar invariavelmente cinco minutos depois da hora quando é a minha excelentíssima esposa a levá-la. É um conceito estranhíssimo, mas verdadeiro: a minha mulher consegue estar sempre pontualmente atrasada.

 

A questão é: porque é que não acordámos 10 minutos mais cedo? Porque é que não nos organizámos melhor? Porque é que não fomos mais prudentes? Porque é que saímos sempre a correr que nem doidos? Porque é que isto acontece todo o santo dia? Porquê, porquê, porquê? Todos os sabemos porque é as coisas correm mal? Sabemos. Porque é que não as corrigimos de vez? Sabe Deus. Minhas senhoras e meus senhores: a minha casa é Portugal.

 

2.     O estado do país.

 

A minha casa é Portugal na desorganização, na falta de planeamento e – por que não dizê-lo? – na incompetência. Mas com uma diferença muito importante: felizmente, eu e a minha mulher ainda ganhamos o suficiente para a sustentar. Portugal, não.

 

E por isso, quando tanto se fala do estado do país, das soluções para o país, ou do futuro do país, temos de tomar consciência de duas coisas.

A primeira é de que nós estamos falidos. Fomos uns adolescentes estroinas durante décadas e precisamos do dinheiro da mãe (chame-se ela Angela Merkel ou o que for) para nos sustentar.

 

A segunda é de que nós estamos falidos por culpa própria. Nós chegámos aqui não porque alguém nos obrigou, não porque tivemos más companhias que nos levaram para a droga, mas porque assim o quisemos. Afirmar que nós estamos falidos e falidos por culpa própria parece tão evidente que dizê-lo aqui em voz alta pode até ser considerado ofensivo para a inteligência da insigne plateia. Mas olhem que não. Metade do país ainda não percebeu isto. Boa parte da esquerda em Portugal continua em negação. E isto é como aquelas reuniões nos Alcoólicos Anónimos: até nós admitirmos “sim, sou alcoólico”, ninguém pode iniciar o processo de cura. O primeiro passo é admitir o problema.

 

A verdade é que nós até admitimos o problema, mas depois agimos como se a culpa não fosse nossa. Dizemos que a culpa é do mundo. Dizemos que a culpa é dos mercados.

 

 

 

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