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Uma coisa em forma de assim

por João Miguel Tavares, em 14.11.13

O texto que o Daniel Oliveira hoje publica no Expresso, intitulado "Um novo sujeito político à esquerda", é importante por duas razões:

 

1. Admite que a esquerda europeia esbarrou de frente com a parede e que experiências como a de Hollande (ainda há tão pouco tempo o herói de António José Seguro) estão a escaqueirar a pouca credibilidade que lhe resta, abrindo espaço ao crescimento da extrema-direita.

 

2. Apresenta alegadas alternativas alegadamente concretas para inverter a situação.

 

Analisemos então o que diz Daniel Oliveira no seu texto:

 

1. Hollande está a lixar tudo [concordo].

 

2. Seguro é "um Hollande em potência" [concordo].

 

3. A única forma de o PS não seguir os passos de Hollande é com uma "forte ameaça vinda da esquerda" [concordo].

 

4. "Essa ameaça dificilmente poderá surgir, por si só, apenas de um novo partido político" [certo, o Rui Tavares não vai resolver nada].


5. "Isso poderia balcanizar ainda mais o que já está dividido, bloqueando qualquer solução" [ok... então a solução é apoiar o PCP e o Bloco?].


6. "Essa ameaça dificilmente pode surgir do PCP" [ai não? Ok, corta-se o PCP... Fica o Bloco].


7. "Essa ameaça não virá do Bloco de Esquerda, que perdeu a oportunidade histórica de cumprir esse papel" [também não?... mas então quem? O PCTP/MRPP?].


8. "A verdade é que dificilmente, em Portugal, com a nossa história, um movimento político amarrado à tradição da extrema-esquerda poderá ameaçar o PS" [eeeerhhh, bom, mas então, não estou a ver bem...].


9. "Na reconfiguração do cenário partidário à esquerda, a abrangência ideológica tem de ser muitíssimo maior do que hoje é abarcado pelos partidos à esquerda dos socialistas" [ok... precisamos então de uma cena ideologicamente abrangente para obrigar o PS a ser mais ideologicamente concentrado... não sei se faz muito sentido... mas essa cena é o quê?].


10. "Tenha a forma de movimento, frente, coligação ou qualquer outra coisa, o novo sujeito político deve juntar quem, à esquerda, esteja interessado em unir forças. Pode e deve abranger partidos políticos já existentes, partidos políticos que entretanto se possam formar e muitos dos que não militam em qualquer partido" [ah, tá bem, citando o velho O'Neill, é "uma coisa em forma de assim"].


Portanto, em resumo, eis a solução de Daniel Oliveira para salvar o país de Pedro Passos Coelho e de António José Seguro (e posso garantir que até eu pagava para me ver livre desses dois): uma coisa em forma de assim. Um "movimento". Uma "frente". Uma "coligação". Mas especialmente: "qualquer outra coisa". E ainda: um "novo sujeito político".

 

Infelizmente, está-se mesmo a ver que, para não variar, este é mais um sujeito que não vai sair de verbo.

 

Entre o partido político de Rui Tavares que ninguém sabe quem apoia e a coisa de Daniel Oliveira que ninguém sabe o que é, venha o Diabo e escolha. Mas assim está a nossa esquerda, e assim estão dois dos seus mais jovens, mediáticos e brilhantes representantes (e aqui não estou a ironizar).

 

Devo dizer que não há nenhuma alegria nesta constatação, porque nós precisamos muito de alternativas credíveis àquilo que temos. Mas esperar que a esquerda se una e se entenda em "qualquer outra coisa" que não seja o NÃO do costume (não, não queremos a troika; não, não queremos a austeridade; não, não vamos por aí), é pura utopia. Basta, a título de pequeno exemplo, olhar para a guerra civil que se abriu no blogue Cinco Dias por causa do legado de Álvaro Cunhal.

 

O que Daniel Oliveira parece querer, se bem percebi, é uma espécie de Tea Party à portuguesa, mas do lado da esquerda. Chamar-lhe Partido do Chá seria desagradável. Chamar-lhe Partido da Falta de Chá seria pouco simpático. Chamar-lhe Partido da Sangria parece-me uma designação correcta: por um lado, porque se mete tudo lá para dentro; por outro, porque ninguém irá sair de lá vivo.



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