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Parece que sou fascista

por João Miguel Tavares, em 14.11.13

Há umas semanas o Daniel Oliveira deu-me umas bicadas no seu blogue Arrastão, e eu respondi-lhe no Público com este texto, que ainda se mantém actual - já irão ver porquê:


Daniel Oliveira, que não sendo propriamente meu amigo é alguém por quem nutro amizade e admiração intelectual, decidiu falar de mim numa das suas últimas colunas do Expresso online [NR: na verdade, o texto acabou por não sair no Expresso online, mas apenas no Arrastão], incluindo-me numa “jovem direita, que até já foi civilizada”, mas que agora, lamentavelmente, “está cada vez mais próxima do estilo Fox News”. Diz ele: “Sente-se ali o Dr. Strange Love. Bem tenta, mas a tradição não deixa conter aquele bracinho...” Ou seja, parece que quando estou mais distraído o meu membro superior direito ganha vida própria e desata a fazer a saudação romana, à boa moda fascista.

 

E porque é que, no entender do Daniel, eu sou um terrível ex-civilizado e um lamentável proto-fascista? Porque me atrevi barbaramente a defender que somos um “país tenrinho”, apontando como exemplo a demora com que o governo tratou o caso da ponte, quando qualquer pessoa com dois dedos de testa e sem um par de palas extremistas nos olhos perceberia que permitir ali manifestações, seja da CGTP ou dos Amigos dos Animais, não tem pés nem cabeça. Tal qual – diria eu imodestamente – se veio a provar.

 

Não querendo, contudo, voltar a uma vaca que por esta altura já está gelada, devo dizer que não percebo porque se indigna tanto Daniel Oliveira com o conceito de “país tenrinho”. Afinal, basta passar os olhos pelo seu blogue – o Arrastão – para encontrar numerosos defensores desta mesma tese. A esquerda mais musculada não tem dito ou sugerido outra coisa. Para vários amigos do Daniel (não sei se deva aqui incluir o próprio, ele logo me dirá), o país é mesmo muito, muito, muito tenrinho, e por esta altura o povo há muito, muito, muito que deveria ter saído à rua e deposto o actual governo, por eles considerado não apenas péssimo, indecoroso ou indecente, mas também – e sobretudo – ilegítimo.

 

Donde, quando Daniel Oliveira afirma que a proibição da manifestação na ponte foi “só mais um passo para o ambiente de medo e apatia que pretendem impor ao País”, o que ele está efectivamente a querer dizer em linguagem de Arrastão é que foi “mais um obstáculo para o ambiente de ferro e fogo que certa esquerda gostaria de ver no país”. Às vezes não sei bem o que é que mais os irrita – se o governo de Pedro Passos Coelho e Paulo Portas, se a forma mole, desencantada e tenrinha com que o povo “ai aguenta, aguenta”.

 

Portanto, caro Daniel, não sou eu que estou com vontade de levantar o bracinho – és tu que mo estás a puxar. Em boa verdade, nós estamos unidos na frustração em relação a este governo: tu, porque achas que ele nos está a empobrecer pela direita (a destruição do Estado Social); eu, porque acho que nos está a empobrecer pela esquerda (a incapacidade de diminuir o peso do Estado). A diferença entre nós é que no meu caso existe um caminho alternativo – a eternamente adiada reforma do Estado –, enquanto no teu caso não existe caminho algum.

 

Espera, estou a ser injusto. Há dias tu propuseste um: “A alternativa? Correr o risco de ser livre. E pagar a factura dessa liberdade. Seja dentro ou fora do euro, seja correndo com a troika ou negociando firmemente com ela. Pobres, se preciso for. Falidos, se tiver de ser. Mas dignos de, como povo, sermos donos do nosso destino.” É bonito, sim senhor. Mas não admira que com alternativas deste calibre a esquerda precise de andar a levantar os braços dos outros – é que para pagar tal factura não há quem ponha a mão no ar.



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