Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]


O Papa pôs o pé na poça #2

por João Miguel Tavares, em 17.12.13

A propósito deste meu post sobre uma frase dita pelo Papa ("a ideologia marxista está equivocada, mas na minha vida conheci muitos marxistas bons como pessoas, por isso não me sinto ofendido") em entrevista ao La Stampa, vários leitores levantaram objecções interessantes que vale a pena comentar.

 

O Pedro aconselhou a ler a resposta do Papa na totalidade, o que me parece sempre uma boa sugestão. Aqui vai ela (a tradução foi tirada daqui):

 

Alguns trechos da "Evangelii Gaudium" atraíram-lhe as acusações dos ultraconservadores norte-americanos. Qual é a sensação de um papa ao ouvir que é definido como "marxista"?

A ideologia marxista é equivocada. Mas, na minha vida, eu conheci muitos marxistas bons como pessoas, e por isso eu não me sinto ofendido.

 

As palavras que mais chamaram a atenção são aquelas sobre a economia que "mata"...

Na exortação, não há nada que não se encontre na Doutrina Social da Igreja. Eu não falei de um ponto de vista técnico. Eu tentei apresentar uma fotografia do que acontece. A única citação específica foi sobre as teorias da "recaída favorável", segundo as quais todo o crescimento económico, favorecido pelo livre mercado, consegue produzir por si só uma maior equidade e inclusão social no mundo. Havia a promessa de que, quando o copo estivesse cheio, ele transbordaria, e os pobres seriam beneficiados com isso. O que acontece, ao invés, é que, quando está cheio, o copo magicamente se engrandece, e assim nunca sai nada para os pobres. Essa foi a única referência a uma teoria específica. Repito, eu não falei como técnico, mas segundo a doutrina social da Igreja. E isso não significa ser marxista.

 

De facto, por aqui se vê que a ideia original do Papa é desmarxizar a sua exortação, acabando, no entanto, esta passagem por ganhar o efeito contrário ao pretendido quando se puxa para título "Papa afirma não se sentir ofendido quando lhe chamam marxista". A frase é factualmente verdadeira, e tendo em conta que as entrevistas que o Papa concede são certamente passadas a pente fino pelos serviços do Vaticano, este é o típico caso em que Francisco se pôs a jeito, e não se deveria ter posto.

 

Diz o leitor Luís Filipe Viegas, acusando-me de não perceber "nada de catolicismo e marxismo":

 

Primeiro porque sou marxista e católico; segundo, porque o marxismo defende o fim da exploração, e creio que o Papa (...) também defende o mesmo.

 

Ora vamos cá ver, porque esta é uma ideia tão divulgada que merece resposta detalhada, já que me parece de uma injusta candura em relação à História e ao próprio marxismo: reduzir as propostas de Karl Marx ao "fim da exploração" é assim como reduzir a ideologia do senhor Adolfo à organização de grandes eventos militares. Ou seja, é uma simplificação terrível de todo o processo para se chegar ao objectivo pretendido.

 

Aliás, para defender o fim da exploração e a igualdade entre os homens, o Papa Francisco não precisaria com certeza de recorrer ao marxismo. Que eu saiba, ele acredita n'Ele e em certas tradições bastantes mais antigas, que defendem precisamente isso há dois mil anos (pelo menos). Reduzir o marxismo e o comunismo a um mero impulso anti-exploratório e igualitário é não só mandar para as urtigas o século XX, como também uma simplificação radical do pensamento de Marx, que o próprio não merece.

 

O marxismo é uma doutrina materialista, que renega qualquer dimensão espiritual, que advoga a destruição violenta das classes sociais, e que sugere o caminho para lá chegar. Nós sabemos que os exercício práticos não correram, até hoje, particularmente bem. Portanto, tendo em conta a História, o legado de João Paulo II neste campo e a tradição da própria Igreja, esta ideia de transformar o marxismo numa doutrina inócua que se limita a combater os capitalistas maus e tem pena dos pobrezinhos só poder ser a versão Disney de O Capital.

 

Diz o leitor J. Viegas:

 

Todo este artigo se resume à última frase. Confundir inclusão com paternalismo irritante é uma marca característica das igrejas protestantes. E ajuda a explicar templos vazios e a expressão diminuta - ou nula - que têm na sociedade.


Suponho que esse seja mais um comentário para o Tiago Cavaco do que para mim. Mas talvez convenha precisar o que eu quero dizer com o excesso de inclusão poder descambar em paternalismo - é um tema que me interessa muito.

 

Qualquer pessoa que já tenha frequentado a Igreja (Católica) terá ouvido muitas vezes a propósito de ateus porreiros a seguinte frase: "Tu já encontraste Deus, só que ainda não sabes." A frase pode ter variações, mas anda sempre à volta desta ideia - e é esta ideia que eu considero profundamente paternalista. Porquê? Porque desmerece o outro, o seu trabalho intelectual e a fidelidade à sua própria consciência. Quem sou eu para dizer a uma pessoa que entende que Deus não existe que ela, na verdade, acredita em Deus só que não sabe? Por mais bem intencionada que seja a frase, ela é profundamente ofensiva.

 

Da mesma forma, um Papa dizer que não se sente ofendido por lhe chamarem marxista só é aceitável se ele não levar o marxismo a sério. Se o levar a sério (como João Paulo II, porque o sofreu na pele, levava), obviamente que não pode aceitar que o chamem marxista apenas porque conhece marxistas fixes e acha mal a opressão e a desigualdade. Tal como eu, por exemplo, não posso aceitar que me chamem fascista só porque sou de direita e acho que não devemos olhar para o Estado como se ele fosse o nosso papá. As palavras têm um significado e devem contar para alguma coisa.

 

Claro que eu não sou nada susceptível (modéstia à parte, é uma das minhas melhores qualidades), e acho excelente que o Papa também não seja. Mas o senhor Francisco tem grandes responsabilidades, e abrir tanto os braços ao ponto de lá caber tudo, incluindo marxistas e sabe-se lá mais o quê, só é possível se se verificar uma de duas hipóteses: ou o Papa não acredita a sério no que prega, ou então não acredita a sério nas convicções dos outros.

 

Na minha modesta opinião, nenhuma dessas atitudes se recomenda. E atenção: eu estou a gostar imenso deste Papa. Agora, que aquela frase em particular lhe saiu mal, saiu. Acontece. Tanto a marxistas como a católicos.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)


Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.




Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Para ler o jornalista a falar da família



Arquivo

  1. 2014
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2013
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D



Favoritos