Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]


Vítor Ramil - vénia, vénia - vem ao São Luiz

por João Miguel Tavares, em 02.10.14

 

Durante os muitos anos que escrevi sobre música brasileira, o nome de Vítor Ramil foi uma presença sussurrada. Aquilo a que se costuma chamar "um segredo bem guardado", expressão com que habitualmente se classifica um artista que 127 pessoas consideram um génio e 127 milhões ignoram tristemente.

 

Eu conhecia os discos "Ramilonga" e "Tambong", comprados numa viagem ao Rio de Janeiro (infelizmente, os seus discos nem sequer se arranjam por cá), e os ecos da sua "estética do frio", essa reflexão muito particular sobre a identidade cultural do Rio Grande do Sul, de onde Ramil é originário. No entanto, culpa das dispersões e do excesso de audições, nunca dediquei a essas obras a atenção que elas mereciam.

 

Foi preciso esperar por "Délibáb", extraordinário disco de milongas onde os textos de Jorge Luis Borges se misturam com os do poeta gaúcho João da Cunha Vargas, para finalmente me cair a ficha - quem raio é este gajo, pensei eu para com os meus botões? 

 

Foi um clique. E um clique que não desclicou. O gajo era Vítor Ramil, claro, e o DVD que acompanhava "Délibáb" demonstrava o espantoso rigor, a espantosa originalidade e a espantosa criatividade do músico gaúcho, que nos levava directamente para as pampas à força de duas guitarras e uma magnífica voz. Mas não fazia só isso: mostrava-nos uma nova maneira de falar português, via Cunha Vargas. Grande música e grande literatura? Não é todos os dias.

 

Vi tocar Vítor Ramil na Culturgest, há quatro ou cinco anos, caiu-me o queixo durante hora e meia (não foi só a música: as conversas entre canções valeram tanto como as próprias canções) e prometi a mim próprio que de cada vez que Ramil voltasse a Portugal eu estaria na plateia para o escutar. E é promessa para cumprir.

 

Na próxima terça-feira, 7 de Outubro, pelas 21 horas, Vítor Ramil vai estar no São Luiz a apresentar o seu próximo trabalho, "No Mês que Vem". É mais um disco extraordinário, um álbum duplo que olha e relê toda a sua carreira. Não é um "best of" - é uma autobiografia musical interpretada com suprema elegância. Como convidados, promete-se Gisela João, Mário Laginha e o guitarrista argentino Carlos Moscardini.

 

Se havia 127 pessoas que consideravam Vítor Ramil um génio, depois de eu o escutar com atenção passámos a ser 128. Ora, não há qualquer razão para esse número não continuar a aumentar.

 

Para abrir o apetite, aqui ficam dois dos seus temas: "Estrela, Estrela", talvez o mais conhecido, e ainda aquele que dá nome ao seu último disco, "No Mês que Vem". E lembrem-se: ao vivo ainda é melhor.

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)


4 comentários

Sem imagem de perfil

De Madalena Ramos a 03.11.2014 às 12:08

Caro João Miguel Tavares,
Venho por esta via contar-lhe uma história daquelas que nos parecem irreais por tão absurdas. Esta história diz respeito aos meus pais (com respetivamente, 73 e 77 anos de idade e um rendimento mensal conjunto de menos de 650€ ) e ao Novo Regime de Arrendamento Urbano (NRAU). Provavelmente terá conhecimento de que o NRAU foi aprovado com uma cláusula que é uma verdadeira armadilha para os inquilinos que se encontram na situação mais frágil: os que se encontram em situação de carência económica. O artigo 35.º, n.º 5, diz que “no mês correspondente àquele em que foi feita a invocação da circunstância regulada no presente artigo e pela mesma forma, o arrendatário faz prova anual do rendimento (RABC) perante o senhorio, sob pena de não poder prevalecer-se da mesma”. Basta que um inquilino não saiba ou se esqueça da necessidade de fazer prova do seu RABC no mês em que invocou a situação de carência económica, o que não será difícil (atendendo ao perfil dos inquilinos que se encontram nesta situação e que são na grande maioria dos casos reformados ou pensionistas, idosos e com baixos níveis de habilitações e literacia), para que o senhorio possa aumentar substancialmente a renda.
Voltando à história dos meus pais, eles são arrendatários de um andar em Lisboa, o meu pai tem 73 anos e a antiga 4ª classe e a minha mãe 77 ano e não sabe ler nem escrever. Invocaram no ano passado (em fevereiro) carência económica na atualização da renda e fizeram prova disso mesmo. A renda foi, por isso mesmo, atualizada para o máximo possível de 17% do seu rendimento (€127,67).
No final de 2013 foi descoberto ao meu pai um tumor maligno no reto, o que o obrigou a fazer radioterapia, quimioterapia e que culminou com duas intervenções cirúrgicas (uma em maio de 2014 e outra em setembro). A precariedade do seu estado de saúde e todas as preocupações daí decorrentes levou a que tivesse sido esquecida a obrigatoriedade de pedir no serviço de finanças a declaração do rendimento anual bruto corrigido com o correspondente envio para o senhorio.
Em meados de setembro foram surpreendidos com uma carta do advogado do senhorio que, com base no ponto nº 5, do artº35, atualiza a renda para um valor de 220,55 euros. Atendendo a que conjuntamente o seu rendimento mensal é de 638,4 euros este é um valor claramente incomportável para eles, já que representa mais de um terço do seu rendimento. Já em setembro foi emitida pelo serviço de finanças a declaração do rendimento anual bruto corrigido comprovando que a situação não se alterou, foi enviada ao senhorio e feito o pedido de para que não houvesse atualização da renda, tendo em atenção todas as circunstâncias atenuantes ligadas ao estado de saúde do meu pai e ao facto de ter sido sempre um inquilino que cumpriu exemplarmente com as suas obrigações. No entanto, o senhorio mantém-se intransigente, dizendo que lei é lei.
Entretanto, foi público que o Conselho de Ministros, reunido a 11 de Setembro de 2014, aprovou uma proposta de lei que procede à revisão do regime jurídico do arrendamento urbano e que entre as alterações aí aprovadas cai a obrigatoriedade da prova anual de rendimentos para quem tenha invocado carência de rendimentos que passará a ser apresentada apenas se pedida pelo senhorio e "em articulação com a liquidação anual dos impostos sobre o rendimento", ou seja, depois da liquidação do IRS. Esta proposta, pelo que sei, foi já aprovada na generalidade na Assembleia da República. Todavia, para além de ainda não ter saído em Diário da Republica, ninguém me consegue esclarecer quanto ao que irá acontecer quando isso acontecer. O que acontece aos inquilinos que como o meu pai foram apanhados neste limbo? A situação é reversível? E, em caso afirmativo, será feita a devolução do diferencial entretanto pago? E se a situação não for reversível? Não há um teto máximo para a renda neste caso para os mais idosos e carenciados? E se não pagarem o novo valor exigido? Serão despejados?
Estas são algumas perguntas que enviei para os vários grupos parlamentares e para o Provedor de Justiça e que até hoje não tiveram qualquer resposta. Resta-me tentar fazer chegar o assunto à comunicação social, na esperança de que estas questões sejam colocadas na praça pública.
Melhores cumprimentos.
Imagem de perfil

De João Miguel Tavares a 03.11.2014 às 16:29

Cara Madalena, a situação parece-me, de facto, inconcebível. O melhor que posso fazer é enviar este seu texto para o Público, esperando que alguém de lá se interesse pelo tema.
Sem imagem de perfil

De Madalena Ramos a 03.11.2014 às 16:39

Obrigada.

Qualquer ajuda na divulgação deste assunto é bem vinda.

Sem imagem de perfil

De Claudia da Silva Tomazi a 21.10.2014 às 02:18

Vitor Ramil é especial.

128

Comentar post




Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Para ler o jornalista a falar da família



Arquivo

  1. 2014
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2013
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D




Favoritos