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Resposta a Hugo Mendes, do Jugular #2

por João Miguel Tavares, em 26.11.13

A propósito do meu texto sobre a Irlanda e Portugal, o Hugo Mendes escreveu dois óptimos posts no Jugular, sobre os quais falo aqui e aqui. Tendo em conta a pertinência das suas críticas e uma análise enviesada da minha parte num par de pontos importantes, deixei este texto meu na caixa de comentários do seu blogue:

 

Queria mais uma vez agradecer ao Hugo Mendes a trabalheira que deve ter tido a reunir todos estes dados. Só por isso, o meu texto já terá valido a pena. Eu não conhecia a situação irlandesa com tamanho pormenor, e penso que os argumentos do Hugo colocam em causa a minha afirmação de que o esforço irlandês foi “muitíssimo mais violento” do que o esforço português – até porque sou sensível ao argumento de que um esforço equivalente a partir de uma situação bem mais favorável tem um impacto inferior na vida das pessoas. Ainda que no total o ajustamento dos 28 mil milhões de euros irlandeses seja superior aos 24 mil milhões portugueses (já agora, se me pudesse indicar onde arranjou este último número ficar-lhe-ia grato – sei que foi citado uma vez por Catarina Martins, mas quando andei à procura dele para escrever o meu texto original não o encontrei), e ainda que o programa irlandês tenha sido, de facto, bastante mais violento do lado da despesa logo no início da sua aplicação, a verdade é que o ajustamento foi mais espaçado, porque eles – mais espertos – começaram a ajustar mais cedo, o que põe em causa o superlativo que usei.

 

Permita-me apenas uma precisão (na verdade, trata-se de uma gralha, suponho eu) em relação ao seu post. Quando afirma: “Conclusão: em 2009, o corte na despesa teve a mesma dimensão que o aumento de receita; em 2010, a consolidação foi efectivamente maior do lado da receita”, penso que neste último caso quer dizer despesa e não receita. De resto, penso que os seus números demonstram uma abordagem muito diferente dos dois países em relação à crise. Mesmo quando o Hugo afirma que “foi preciso chegar a 2010, depois de quatro rondas de medidas (verão/2008; outubro/2008; fevereiro/2009; e abril/2009), para o governo preparar um orçamento quase só assente na redução de despesa”, dispenso-me de lhe recordar o que andávamos nós a fazer por essa altura.

 

E nesse aspecto, sem escamotear as minhas imprecisões nas comparações entre Portugal e a Irlanda, peço apenas que não se perca o espírito inicial do meu texto, que foi o de criticar aquelas que dão a saída da Irlanda do programa da troika como um grande sucesso porque não foi “subserviente aos mercados” ou porque “negou a austeridade que a troika quis impor”. Isso são balelas, e continuam a ser balelas, como o texto do Hugo demonstra, aliás, muito melhor do que o meu. A austeridade não só se fez sentir fortemente, como eu gostaria de saber o que a esquerda portuguesa teria a dizer se as medidas de austeridade impostas nesta terra fossem para salvar, em primeiro lugar, o sistema bancário.

 

Daí eu ter falado no final em manipulação intelectual e em cegueira ideológica: dizer que na Irlanda “correu bem” porque se apostou no crescimento em vez da austeridade é continuar a insistir numa dicotomia para atrasados mentais, que nos chama a todos de burros, sejamos nós de direita, ou de esquerda. O que o Hugo fez neste seu post interessa-me, e muito – ter uma discussão inteligente e fundamentada sobre a melhor forma de aplicar um programa económico que passará invariavelmente por uma contracção da economia e pelo sofrimento de muita gente. Quem, como eu, não é economista e está convicto de que o governo está a perder uma oportunidade histórica para melhorar o país, o que mais quer é conhecer gente do outro lado do espectro ideológico com quem consiga ter uma conversa racional, ou seja, uma conversa que não passe pela gritaria “troika para a rua” e seus derivados.

 

Mas, por favor, permita-me um último pedido provocatório, para isto não ser só simpatia: da próxima vez que vir António José Seguro e seus assessores económicos apresentarem uma pilha de medidas para o país onde não consta um único corte na despesa, corrija-os, por favor, com tanto empenho e competência como me corrigiu a mim.



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Mais um post esclarecedor sobre a Irlanda

por João Miguel Tavares, em 25.11.13

O Hugo Mendes tinha prometido que ia voltar ao tema da Irlanda e fá-lo neste completíssimo post. Ele merece-me ainda alguns comentários, que tentarei fazer assim que me for possível.

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Resposta a Hugo Mendes, do Jugular

por João Miguel Tavares, em 22.11.13

O Hugo Mendes responde ao meu texto de ontem no Jugular. A qualidade do seu post mereceu a seguinte resposta da minha parte, que deixei na sua caixa de comentários:

 

Caro Hugo Mendes, eu não tenho por hábito comentar posts, mas a qualidade deste seu texto e a seriedade da sua análise merecem uma resposta da minha parte. Não para contestar os seus números, mas para precisar a minha posição.

 

1. A referência aos 28 mil milhões, que encontrei tanto no Finantial Times como no Wall Street Journal, não se referem apenas a cortes na despesa, mas a cortes na despesa e a aumento de impostos: "To control a huge budget deficit, a legacy of its property and banking crashes, Ireland since 2008 has implemented €28 billion of tax increases and spending cuts. It is obliged under the EU and IMF program to continue cutting the deficit and add another €5.1 billion in cumulative measures for 2014 and 2015." Foi uma imprecisão minha, pela qual peço desculpa.

 

2. Em relação ao interessante gráfico a propósito da evolução do défice irlandês, proponho que o compare com um gráfico semelhante em relação à evolução do défice português. Embora o nosso sistema bancário não tenha entrado em colapso, também tivemos a nossa dose de BPNs, BPPs e BANIFs - retirando esses valores ao défice nacional, e ainda que queira atirar os 30,6% irlandeses borda fora, será o ajustamento dos défices português e irlandês assim tão distinto?

 

3. A motivação do meu texto, como penso que está bem explícito, foi recusar a tese de que o programa irlandês resultou porque fugiu à austeridade. Ele não fugiu à austeridade coisíssima nenhuma. O que fez foi aplicar um outro tipo de austeridade, mais inteligente, que passou muito mais pelo corte na despesa - matéria em que, de facto, diria que foi bastante mais firme - do que pelo aumento dos impostos.

 

4. Por favor, não entenda o meu texto como uma defesa do governo. Eu levo o tempo todo a ser confundido com um defensor do governo só porque passo boa parte do tempo a bater na oposição. Ora, entenda que bater no governo e bater na oposição não são actividades incompatíveis. Bem pelo contrário, diria mesmo que neste momento são as duas únicas actividades possíveis em Portugal. O governo está a desaproveitar uma oportunidade histórica para reformar o país; e o PS está a aproveitar a oportunidade histórica do costume, que consiste em fingir de morto e insinuar que basta estalar os dedos para começarmos a crescer à irlandesa.

 

5. Por último, deixe-me saudar novamente a forma elevada como respondeu ao meu texto. Se as pessoas em Portugal discutissem com a seriedade que o Hugo utilizou aqui, os embates ideológicos seriam altamente produtivos, em vez de se esgotarem na gritaria do costume. Agradeço-lhe sinceramente por isso.´


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Por um Portugal à irlandesa

por João Miguel Tavares, em 21.11.13

Eis a minha crónica de hoje no Público sobre essa extraordinária patranha que consiste em dizer que o programa de resgate irlandês correu bem porque o país resistiu à aplicação da austeridade. Um grande "ah, ah, ah" aqui.

 

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