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O pessoal da Sapo pediu-me com voz fofinha: "João, escreves um texto sobre os santos populares?" E eu: "Mas eu não percebo nada de santos populares." E a Sapo: "Vá lá." E eu: "A sério, nunca na minha vida comemorei o Santo António." E a Sapo: "Vá lá." E eu: "Eh pá, só se for um roteiro para quem quiser comemorar os santos mas sem se dar ao trabalho de sair de casa." E a Sapo: "OK."

 

Ouçam, eu não tenho nada contra o Santo António. Aprecio muito a sua magnífica tonsura, o bebezinho ao colo e a sua fama de casamenteiro. Sou é um bocadinho agorafóbico, e partilhar cada metro quadrado de Alfama com toda uma equipa de rugby, suplentes incluídos, só para conseguir atingir o rabo de uma sardinha assada, é uma coisa que não me assiste. Até porque o próprio Santo António de Pádua (perdão, de Lisboa) escreveu um sermão intitulado "Na solidão encontrarás o Senhor". Reparem bem: "na solidão", não "na confusão".

 

Portanto, a primeira coisa que há a fazer para garantir um Santo António sem confusões, e mais próximo do Senhor, é arranjar sardinhas para degustar em casa. Podemos, desde logo, fazê-lo ao som do clássico "Chama o António", de Toy, que santos sem música não são santos. Isto é pimba em contexto disco sound, ainda por cima com incrível teledisco a acompanhar. Em resumo, uma maravilha.

 

 

Bom, depois de chamar o António, ou até mesmo enquanto se chama o António, uma óptima ideia seria chamar também a equipa do Sea Me para produzir um sushizinho à maneira. Eles têm uma oferta perfeita para a quadra: niguiris de sardinha em flor de sal. Eu já provei, precisamente num Santo António, e posso garantir que isto, sim, é comer sardinhas em grande estilo.

 

 

Aliás, na edição desta semana da Time Out há várias sugestões de pratos alternativos feitos com sardinha (incluindo uma pizza de sardinha da Pizza a Pezzi), que vão muito para além de colocar o peixe falecido em cima de uma boa brasa. Espreitem só como aperitivo, e depois vão comprar a revista:

 

 

Mas regressemos à música, que ela nunca pode parar.

 

Para acompanhar a comida, bem dentro do espírito antonino, o que não falta são marchas a preceito e fados com referências à noite lisboeta mais longa do ano. Amália cantou abundantemente o Santo António, e recordo que no primeiro disco de Carminho há uma magnífica versão do clássico "Marcha de Alfama". Até Maria Bethânia tem uma versão deslumbrante de "Santo Antônio" (assim mesmo, com chapelinho no "o") no álbum Brasileirinho.

 

 

Mas deixemo-nos de finuras. O Bruno Nogueira acabou de lançar a versão em disco do seu espectáculo Deixem o Pimba em Paz, uma excelentíssima homenagem a essa grande arte nacional do trocadilho badalhoco. Colocá-lo no leitor de CDs não seria nada má ideia.

 

 

Um dos pináculos do disco é a grande interpretação de Bruno Nogueira do clássico de Leonel Nunes "Porque Não Tem Talo o Nabo", que contém algumas das mais habilidosas rimas da história da poesia nacional. Degustem, por favor:

 

E porque a couve tem talo

E o bacalhau tem rabo

Se o feijão verde tem fio

Porque não tem talo o nabo

 

Se a banana tem cacho

Toda a uva tem que tê-lo

Já pensei muitas vezes

Porque não tem talo o grelo

 

Reparem no notável esforço para encontrar uma rima para a palavra "grelo", o que obrigou a uma extraordinária pirueta sintáctica envolvendo o verbo "ter". Grande Carla Nunes, autora da música e da letra. A versão original é de Leonel Nunes. Cá está ela:

 

 

Depois deste altíssimo momento, e como já estamos no domínio da agricultura, é preciso resolver o problema do manjerico. Também para isso não é preciso sair à rua para arranjar vasos: basta plantar manjerico numa horta biológica como aquela que eu cá tenho em casa. Se quer saber como é que isso se faz - a plantação do manjerico, não a horta biológica -, é só ir aqui. É possível que depois lhe apareça tanta mosca da fruta como a mim, mas se for só por uma noite, a coisa aguenta-se.

 

 

Tendo nós garantido a sardinha e o manjerico, falta apenas prolongar a festa pela noite dentro.

 

Uma hipótese seria ver, em homenagem ao santo, o velho Santo na televisão, ainda que as parecenças de Roger Moore com o Santo António não sejam grandes:

 

 

Outra é não deixar o pimba em paz, e acabar a noite ao som do sempre eterno Quim Barreiros, que, como é óbvio, nunca pode faltar.

 

 

Qualquer que seja a opção, a festa estará sempre garantida.

 

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