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Solução 1: Apoiar a constituição de mega-bandas como os Arcade Fire, para atacar a tragédia do desemprego. Ora cá está a solução oriunda do Quebeque, que foi apresentado no Rock in Rio na noite de ontem. Bastariam duas ou três bandas como os Arcade Fire para o desemprego jovem cair a pique em Portugal. É possível que a própria juventude do Canadá estivesse perdida na procrastinação quando Win Butler resolveu fundar os Arcade Fire em 2001. Graças à generosidade desse gesto, foram contratados cerca de 843 músicos para subirem ao palco, soprando, teclando, riffando ou martelando em tudo o que possa produzir som.

 

A esses 843 músicos juntam-se outros tantos nos bastidores, porque só o põe-guitarra-tira-guitarra-troca-guitarra dá uma trabalheira do caraças. Além disso, há os gajos que fazem de cabeçudos émulos da banda (para quem desconhece, é assistir aos telediscos da banda realizados por Anton Corbijn ou Roman Coppola), mais outros vestidos de esqueletos ou de vidrinhos brilhantes, isto já para não falar nos trabalhos indirectos criados, como seja os fabricantes de bombos e tambores, que têm de estar sempre a substituir material - isto porque o desvairado William Butler (maninho de Win) lança instrumentos de percussão a quatro metros de altura, que caem depois com grande estrondo no chão. Faz parte do espectáculo.

 

© Agência Zero 

 

A consequência desta avalanche de gente e de material sonoro (dá ideia de que quem toca menos do que cinco instrumentos não tem lugar na banda) é que os Arcade Fire são o cumprir do sonho húmido do velho Phil Spector - isto é a "wall of sound" por excelência. E então quando os 843 gajos se apanham ao vivo com 40 mil pessoas pela frente, o resultado é um dos melhores espectáculos do Rock in Rio, que só não é mesmo "o" melhor espectáculo porque é preciso respeitar os bisavôs pedrados (também conhecidos como Rolling Stones) e porque a banda de Montreal arrancou com tal pujança que depois não foi capaz de manter o mesmo ritmo até final.

 

Quando o concerto ia na meia hora, eu estava a achar que aquilo ia entrar directamente para o meu top 10 existencial - mas mesmo que o gás se tenha perdido um pouco na última metade, os Arcade Fire são das coisas mais estimulantes que se podem ver hoje em dia, uma cornucópia sonora digna de ourives minhoto. Não é fácil pôr tanta gente a fazer tantas coisas boas, como camadas sonoras em cima de camadas sonoras, sem que tal nunca resulte em empastelanço. Eles são imaginativos. Eles são virtuosos. Eles combatem o desemprego. Um luxo.

 

Solução 2: Ser poupadinho como Lorde. A miúda neo-zelandesa de 17 anos acerca da qual toda a gente pergunta "17 anos?, a sério?", fez-se acompanhar no Rock in Rio de um senhor nas teclas e de outro na bateria, uma tal poupança de meios que a jovem que venceu o Grammy de Melhor Canção de 2013 graças a "Royals" deveria ser condecorada pelo FMI. Isto, sim, é austeridade musical que não impede o crescimento.

 

Claro que também há uma dose enorme de lata. Porquê lata? Porque apresentar-se num concerto ao vivo desta dimensão praticamente sem banda de suporte exige uma coragem desmedida e uma fé infinita nas suas qualidades musicias. Poderia ser também apenas inconsciência, não fosse a miúda ter pinta de ter muito juizinho - não, Lorde não vai ser daqueles Britney ou daquelas Miley que quando chegam aos 20 anos são colonizadas pelas hormonas e começam a deitar a roupa fora. Há ali muito miolo.

 

© Agência Zero

 

E cabelo, muito cabelo, que ela foi chicoteando ao longo de pouco mais de uma hora, à medida que deitava cá para fora as suas canções atmosféricas, suavemente electrónicas, uma soft pop lânguida mas muito atraente. Além da pergunta "só 17?" talvez valha a pena juntar a pergunta "neozelandesa?", porque isto nada tem a ver com a imagem da Nova Zelândia das ovelhas e das paisagens de O Senhor dos Anéis.

 

A menina é uma cidadã do mundo, que agora tivemos a sorte de ver em Portugal, e que tem tudo para vir a ter uma mui séria carreira, que se estenda muito para lá dos royalties de "Royals". E o prazer, ao que parece, foi mútuo: Lorde (nome verdadeiro: Ella Marija Lani Yelich-O'Connor) admitiu que o concerto de ontem terá sido o maior da sua vida, e no final estava realmente emocionada com o acolhimento, garantindo que nunca esquecerá Lisboa. Provavelmente ela diz isso em todo o lado, mas aqui pareceu verdadeira. A austeridade, afinal, compensa. 

 

Não-solução 3. Uma iniciativa bem-intencionada não é sinónimo de uma iniciativa eficaz. O tributo a António Variações era das coisas que eu aguardava com mais expectativa e que mais queria ver no Rock in Rio. Eu sou dos que adora Variações e dos que acha que os seus dois únicos álbuns permanecem com marcos inultrapassados da pop portuguesa. Não é preciso estar com grandes argumentos: basta ver como as suas canções continuam vivas e frescas mais de 30 anos após terem sido compostas, ou como o projecto Humanos transformou, há uma década, um conjunto de canções inéditas suas em mais um disco incontornável da música portuguesa.

 

 © Agência Zero

 

A ideia de homenagear Variações no ano em que se assinalam os 70 anos do seu nascimento e os 30 da sua morte fazia todo o sentido, e nada há a apontar aos três primeiros convidados para o tributo: Gisela João (com um vestido dourado resplandecente que àquela hora da tarde a fazia parecer a Senhor Mais Brilhante do que o Sol), os Linda Martini e os Deolinda são tudo gente de estilos diferentes, mas também tudo gente consistente, que sabe o que faz. Mesmo sem deslumbrar deram conta do recado, com destaque para uma excelente versão de "Toma o Comprimido" pelos Linda Martini, e para a "Canção do Engate" dos "Deolinda Martini" (palavras de Ana Bacalhau, quando as duas bandas se reuniram em palco).

 

Quem não deu, definitivamente, conta do recado foi Rui Pregal da Cunha. Talvez por já não ter a rotação dos concertos de antigamente, talvez por estar demasiado entusiasmado (ele foi amigo pessoal de Variações), há sérias possibilidades de não ter acertado em mais do que quatro ou cinco notas durante os temas que cantou, de "Dar e Receber" a "Erva Daninha". As calças à repórter Tintin era impecáveis, o discurso sobre Variações foi bonito, mas o desafinanço, ai meu Deus, o desafinanço.

 

© Agência Zero

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1 comentário

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De Ana Maria S a 02.06.2014 às 23:13

Ai O.º ao longe na foto, o Rui Pregal da Cunha mais me parece o José Cid! Nem imagino o que tal músico faria em palco para homenagear Variações

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