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António Zambujo, Lisboa 22:38

por João Miguel Tavares, em 27.11.13

Eis o texto que escrevi para o disco ao vivo de António Zambujo, que está desde a semana passada nas lojas. O Zambujo é alentejano como eu, e entre o fado, o cante alentejano, a música popular e a pop, está a inventar um genero de música que é só dele.

 

 

Em 2007, comecei um artigo sobre António Zambujo com a frase “Se João Gilberto cantasse fado, seria mais ou menos assim”, e graças a Caetano Veloso, que recuperou essa ideia num texto entusiástico, o conceito de “fado bossa nova” aplicado a Zambujo ganhou uma inesperada amplitude, tornando-se desde então na melhor bengala para classificar a sua música. Insuficiente e simplista, como todas as bengalas, mas útil, ainda assim, quando se trata de justificar por que é ele um planeta à parte na constelação do fado.

 

É certo que não se pode dizer que antes dele o fado fosse apenas triste e amargo. Afinal, o Corrido é uma das suas formas estruturantes, e não lhe falta alegria. Mas pode dizer-se que António Zambujo é o primeiro a cantá-lo com uma profunda doçura e uma elegante suavidade, que ninguém antes se lembrara de lhe imprimir. Triste ou alegre, o fado sempre foi uma canção de esquinas aguçadas e pulsão cortante. Mas na voz de Zambujo, eis que subitamente ele se curva, arredonda, aveluda e revela uma dimensão insuspeita – a da delicadeza. É esse o precioso enxerto que o Alentejo trouxe, através de si, à canção de Lisboa. Uma emocionante acalmia das emoções.

 

Mas como sábio e bom alentejano que é, António Zambujo não confunde o melodioso com o meloso. Ele não alambica paixões nem simplifica sentimentos – antes varia caminhos e multiplica triangulações, promovendo encontros improváveis: o fado com a MPB e com a morna; o cavaquinho de Jon Luz com a guitarra portuguesa de Bernardo Couto e o clarinete de José Miguel Conde; compositores como Maria do Rosário Pedreira e João Monge ao lado de Pedro da Silva Martins ou Miguel Araújo, mestres no cruzamento de amor e humor, através dos quais o fado se transfigura em pequenos contos do quotidiano. Contos onde cada um de nós se revê, se reencontra e rejubila, ao ponto de o próprio cantor interromper a actuação que se encontra neste disco para exclamar: “Isto parece um concerto de música pop. Parece que está tudo doido.”

 

Sim, está tudo doido. Mas é pelas melhores razões – por vermos um homem vindo do fado alegrar as nossas almas de uma forma tão inesperada. É como se, diante da habitual tragédia fadista, António Zambujo recusasse soçobrar à fatalidade, sussurrando-nos ao ouvido: “Se a morte é certa, que tal dar uma voltinha na minha lambreta enquanto ela não chega?” E nós vamos, claro, acabando a noite na sala ao lado, entre gemidos de prazer. Às 22.38 de dia 7 de Dezembro de 2012, essa sala chamou-se Coliseu dos Recreios. A partir de agora e deste disco, a sala é a de cada um.  

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