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Sobre o estado do país... em 2011

por João Miguel Tavares, em 01.01.14

No final de 2011, fui convidado para orador da conferência anual da APCER, num hotel de Óbidos, com o objectivo de fazer uma espécie de balanço do estado do país. Hoje, ao andar à procura de uns textos antigos no computador, encontrei o texto da minha intervenção. É bastante longo, mas gostei de o reler, parece-me actual e mais de dois anos depois não retirava uma vírgula ao que ali está escrito. Aqui fica ele:

 

1.     A crise.

 

A maior prova de que o país está realmente em crise é que me disseram que o ano passado o orador convidado desta conferência tinha sido o professor Marcelo Rebelo de Sousa - e neste momento estou aqui eu. Lamento muito. O Dr. José Leitão já me garantiu que eu fui mesmo a primeira escolha, mas ninguém me convence que irem ser obrigados a ouvir-me durante 45 minutos não faça parte de uma dura medida qualquer que foi imposta pela troika.

 

Foi-me pedido para falar um pouco do estado do país, mas aproveitando o facto de a minha mulher ter ficado em Lisboa e de eu precisar de desabafar, queria começar por falar dela. Nós temos três filhos, de três, cinco e sete anos, e estamos sozinhos em Lisboa, porque eu sou de Portalegre e ela é de Castelo Branco e os nossos pais não vivem por perto. Donde, a nossa vida é sempre um grande animação, sobretudo aquelas manhãs loucas em que é preciso correr para os pôr a tempo na escola.

 

A minha mulher é médica e muitas vezes faz bancos à noite. Quando está de banco, e como tem uma opinião muito baixa das minhas capacidades para escolher o guarda-roupa das crianças ou para decidir aquilo que elas devem comer ao lanche, deixa-me tudo criteriosamente organizado por montinhos e às vezes com post-its, ao ponto de as minhas manhãs quando ela não está parecerem uma linha de montagem da Autoeuropa: é só ensacar a comida nas malas e os miúdos nas respectivas roupas.

 

Quando eu estou sozinho, portanto, chego sempre impecavelmente a horas à escola, apesar de não ter ajuda e estar geralmente sem carro e ser obrigado a ir de metro. Já quando a minha excelentíssima esposa está em casa… instala-se o caos. Eu estou à espera que ela faça e ela está à espera que faça eu, como somos dois parece que o tempo estica quando na verdade encolhe, é como se nos atrapalhássemos um ao outro.

 

Ela põe-se a fazer a cama dos miúdos e a meter a máquina de lavar roupa a trabalhar, eu pergunto-lhe se ela acha mesmo que aquela é a altura certa para fazer aquilo, porque raio é que ela não percebe que a prioridade é enfiar os putos na escola, ela basicamente acha que eu sou um parasita que só quer sopas e descanso, e no final acabamos a discutir. O resultado é a Carolina (a minha filha mais velha, a única que já está na primária) chegar invariavelmente cinco minutos depois da hora quando é a minha excelentíssima esposa a levá-la. É um conceito estranhíssimo, mas verdadeiro: a minha mulher consegue estar sempre pontualmente atrasada.

 

A questão é: porque é que não acordámos 10 minutos mais cedo? Porque é que não nos organizámos melhor? Porque é que não fomos mais prudentes? Porque é que saímos sempre a correr que nem doidos? Porque é que isto acontece todo o santo dia? Porquê, porquê, porquê? Todos os sabemos porque é as coisas correm mal? Sabemos. Porque é que não as corrigimos de vez? Sabe Deus. Minhas senhoras e meus senhores: a minha casa é Portugal.

 

2.     O estado do país.

 

A minha casa é Portugal na desorganização, na falta de planeamento e – por que não dizê-lo? – na incompetência. Mas com uma diferença muito importante: felizmente, eu e a minha mulher ainda ganhamos o suficiente para a sustentar. Portugal, não.

 

E por isso, quando tanto se fala do estado do país, das soluções para o país, ou do futuro do país, temos de tomar consciência de duas coisas.

A primeira é de que nós estamos falidos. Fomos uns adolescentes estroinas durante décadas e precisamos do dinheiro da mãe (chame-se ela Angela Merkel ou o que for) para nos sustentar.

 

A segunda é de que nós estamos falidos por culpa própria. Nós chegámos aqui não porque alguém nos obrigou, não porque tivemos más companhias que nos levaram para a droga, mas porque assim o quisemos. Afirmar que nós estamos falidos e falidos por culpa própria parece tão evidente que dizê-lo aqui em voz alta pode até ser considerado ofensivo para a inteligência da insigne plateia. Mas olhem que não. Metade do país ainda não percebeu isto. Boa parte da esquerda em Portugal continua em negação. E isto é como aquelas reuniões nos Alcoólicos Anónimos: até nós admitirmos “sim, sou alcoólico”, ninguém pode iniciar o processo de cura. O primeiro passo é admitir o problema.

 

A verdade é que nós até admitimos o problema, mas depois agimos como se a culpa não fosse nossa. Dizemos que a culpa é do mundo. Dizemos que a culpa é dos mercados.

 

 

Eu comprei uma casa há dois anos. Pago uma pipa de massa ao banco todos os meses. Mas se eu deixar de ter dinheiro para pagar a casa porque a Euribor disparou e eu não me preveni, vou dizer que a culpa é do banco? Vou dizer “vocês são uns agiotas que só pensam no lucro”? Claro que só pensam no lucro – é um banco, por amor de Deus. A questão é não ficar nas mãos dos bancos. A questão é ser prudente. É fazer as contas. Ora, nós ficámos nas mãos dos mercados. Andar agora a chorar “snif, snif, os mercados são maus!” é de uma infantilidade indigna de um país que, já agora, se deveria comportar como se fosse adulto.

 

Ainda há dias levámos com um manifesto chamado “Um Novo Rumo”, cujo primeiro signatário era o doutor Mário Soares, onde não havia uma única ideia, mas apenas indignação. Protestava-se contra “a anarquia financeira internacional”. Contra “os obscuros jogos do capital”. Contra os “governos tecnocratas”. Contra a “política de privatizações” e contra as “políticas de austeridade”. Tudo queixas justas? Diria que sim. Claro que assistimos a cortes bárbaros. Claro que ninguém pode gostar do Orçamento de Estado para 2012. Claro que ninguém gosta de ver a sua vida andar para trás. Mas a questão é: e podemos fazer o quê?

 

Minhas senhoras e meus senhores, se eu for a andar na rua e me cair um vaso em cima da cabeça, eu também posso protestar contra a existência da força da gravidade. Se o vaso em vez de cair de cima para baixo caísse de baixo para cima já não me teria acertado na cabeça. Mas desconfio que não é por causa dos meus protestos que a lei da gravidade vai mudar. Ora, boa parte da esquerda que se opõe às medidas da troika o que quer é precisamente isso: que o mundo subitamente se organize de outra forma e – quem sabe? – nasçam asas brancas nas costas dos políticos, dos economistas e, sobretudo, dos mercados.

 

Eu desconfio que não vai acontecer. E no entanto, os signatários do tal “Um Novo Rumo” pugnam por “um novo paradigma” (que ninguém faz ideia de qual seja), apelando “à participação política e cívica dos cidadãos”. Obrigadinho. Eu também apelo à participação política e cívica dos cidadãos. Parece-me óptimo. Mas serve para alguma coisa na hora de pagar as contas?

 

Este é o drama. Ninguém gosta de como as coisas se estão a passar, mas também ninguém tem alternativa para que elas se passem de outra maneira. Chegou um momento, na primeira metade deste ano, em que o Ministério das Finanças finalmente percebeu que em breve não iria ter dinheiro para pagar ordenados e decidiu chamar a troika. Fomos nós – convém recordar – que os chamámos. A partir daí, deixámos de ser os donos da bola. Não gostamos das regras? Não os tivéssemos chamado. Chamámo-los? Então já não somos nós a mandar no jogo. É tão simples quanto isso.

 

Pessoas com a responsabilidades de Mário Soares que dizem estar contra “políticas de austeridade” porque elas ainda afundam mais a economia (o que é verdade) têm a obrigação de apresentar soluções concretas em vez de clamar por “novos paradigmas”. Que eu saiba, nem os bancos nem o FMI aceitam emprestar dinheiro em troca de novos paradigmas (você entrega-me um novo paradigma e eu passo-lhe um cheque).

 

Esta lucidez tem faltado em Portugal. Esta honestidade intelectual tem faltado em Portugal.

 

Tal como tem faltado a capacidade de nos colocarmos na pele dos outros. Nós, que tanto temos criticado a Alemanha pelo seu papel na crise europeia, esquecemo-nos que os alemães sentem em relação a nós, portugueses, o mesmo que nós, portugueses do continente, sentimos em relação aos portugueses da Madeira. Ou seja, eles pensam: “ali estão uns estroinas que não se sabem governar, que vivem em situação de privilégio, e que ainda por cima ficam com o nosso dinheiro.” Nós somos os Albertos Joões Jardins de um qualquer fabricante de automóveis de Munique.

 

Quando realmente percebermos isto estamos, tal qual o alcoólico anónimo, pronto para a cura. E a cura é só uma: nós estamos condenados a empobrecer. Não há outra forma. Durante anos e anos consumimos muito acima do que produzimos e agora já ninguém nos empresta dinheiro para manter o estilo de vida. Somos como um gordo que caiu à força no programa Peso Pesado. A troika é o nosso instrutor: bruto, violento, e, muitas vezes, injusto. Mas perder peso é o nosso único remédio.

 

Podemos estrebuchar, podemos clamar por “novos paradigmas”, como quem diz “preciso de parar um bocadinho que já não aguento mais, está a faltar-me o ar”, mas não há outra solução. (A não ser, claro, que se queira sair do euro – caso em que iremos empobrecer ainda muito mais.) Nós consumimos que nem doidos após a entrada no euro, o nosso PIB não conseguiu acompanhar esse ritmo, e agora o endividamento que sustentava esse desvio deixou de ser possível a juros baixos. Isto não é uma conspiração dos economistas neoliberais. Isto é matemática.

 

O problema é que nós deixámos de fazer contas de matemática. Deixem-me falar-vos um pouco de um tema que tem andado muito na ordem do dia: a RTP. A RTP – ainda mais do que a minha mulher – é muito útil para compreendermos o país em que vivemos.

 

Há uns tempos eu lancei um livro (a queixar-me da família, como já devem ter desconfiado), e por causa dele e para o promover tive a oportunidade de ir a vários canais por cabo da SIC, da TVI e da RTP. Como só tenho um automóvel e a minha esposa anda frequentemente com ele, fui obrigado a ir de táxi. E à vinda, como é natural, pedi na recepção que me chamassem um táxi para regressar a Lisboa.

 

Na SIC, o segurança que estava na recepção fez um telefonema e chamou um táxi. Na TVI, a senhora que estava na recepção fez um telefonema e chamou um táxi. Na RTP, os seguranças que estavam na recepção (eram dois) apontaram-me um telefone que estava em cima do balcão e disseram-me para eu – não eles, mas eu – ligar à telefonista. Eu liguei à telefonista e perguntei: “Olá, como está?, será que me podia chamar um táxi?” E ela respondeu: “Vou passar à central de táxis e o senhor faz o pedido, está bem?”

 

Ou seja, na SIC e na TVI, uma só pessoa satisfez o meu pedido. (Também não era um pedido muito complicado: era só chamar um táxi.) Na RTP intervieram três pessoas para me informar que a pessoa mais indicada para satisfazer o pedido era eu próprio. Não me atrevi a perguntar porquê, mas na também não precisava. Se o tivesse feito estou certo que os senhores da portaria me iriam responder que foram contratados para assegurar a segurança e a senhora telefonista diria que o seu trabalho não era chamar táxis mas passar chamadas.

 

São pormenores tão ridículos quanto este (poderia referir outros, como o facto de as equipas da RTP para produzir um programa fajuto terem o dobro dos elementos da SIC ou da TVI) que explicam o estado a que a RTP chegou. Devo dizer que eu li o famoso e polémico estudo do grupo de trabalho para decidir o que fazer com a RTP. Havia profundas reflexões sobre o papel do serviço público, que entusiasmaram numerosos comentadores. Encontrei gente (sobretudo de esquerda, lá está) a defender a importância do serviço com uma paixão desmesurada, como se fosse tão importante ter a RTP em suas casas como garantir que todas as crianças têm direito a uma boa educação.

 

Eu não quero entrar nessa conversa. Quero apenas chamar atenção para um pequeno quadro que acompanhava o relatório do grupo de trabalho. Nesse quadro fazia-se um resumo de todo o dinheiro que o Estado injectou na empresa desde 2003. Pois bem: no espaço de oito anos (ou seja, até 2011) foram injectados 2583 milhões de euros, aos quais acresce ainda as receitas de publicidade. Mesmo assim, esse dinheiro não chegou para cobrir as despesas da estação. No Orçamento de Estado de 2012 – atenção: 2012, o ano de todas as contenções – estão inscritos mais 661,82 milhões. Repito: 661,82 milhões de euros para a RTP.

 

Em menos de uma década, a RTP custou aos portugueses mais de 3,2 mil milhões de euros – seria necessário todos os funcionários públicos ficaram sem subsídio de Natal e sem subsídio de férias em 2012 e em 2013 só para pagar esse valor. Eu acredito que se cada português tivesse a perfeita noção da enormidade destes números acabar-se-iam de imediato as discussões em torno de quão extraordinário e necessário é um serviço público de televisão no século XXI.

 

É que, na verdade, só há duas formas de encarar o futuro da RTP. Ou se defende que o serviço público de televisão é um conceito ultrapassado e mais vale acabar com ele. Ou se defende que o serviço público de televisão é um conceito que continua a fazer todo o sentido – só que não há dinheiro para o pagar. De uma forma ou de outra, chegamos ao mesmo resultado: a RTP é um monstro que o país já não se pode dar ao luxo de alimentar. Nós temos de acabar com esta mania de aristocratas falidos, que andam a passear medalhas e a exibir um estilo de vida completamente desenquadrado das nossas possibilidades.

 

Quer isto dizer que o futuro de Portugal era fazer implodir o Terreiro do Paço e todos os ministérios, abolir o Estado e deixar tudo à iniciativa privada? Não, não quer dizer nada disso. O Estado continua a ter um papel importantíssimo. Não pode é ser eternamente a mega-teta – perdoem-me a deselegância da formulação – onde todos sonham um dia ir chuchar.

 

3.     A solução do problema.

 

O país, como diria o doutor Mário Soares, precisa de um “novo paradigma”, mas o novo paradigma não pode é ser o velho paradigma do Estado papá de todos nós que ele e os seus amigos acabam por advogar.

 

O país está a sacrificar uma geração inteira devido à protecção descabelada das gerações mais velhas – para alimentar os seus privilégios, as suas pontes, as suas baixas fraudulentas, o seu emprego para a vida toda por mais incompetentes que sejam as suas acções, os jovens que hoje em dia estão na casa dos 20 e 30 e poucos anos têm percentagens altíssimas de desemprego e, pela primeira vez num século, correm o risco de vir a ter pior vida do que os seus pais. É uma constatação terrível, esta: a geração mais qualificada de sempre tem as piores perspectivas de vida de sempre.

 

E se até agora isto não resultou numa tragédia é porque os papás continuam a pagar as contas. Se os papás deixarem de pagar as contas, talvez aquela revolução com que os antigos capitães de Abril parece que voltaram a sonhar se torne realidade. Como quebrar este círculo vicioso?

 

Se eu tivesse uma resposta clara a esta resposta não estaria aqui agora a falar convosco mas em São Bento a conversar com o primeiro-ministro (obviamente que é muito mais agradável estar aqui a falar convosco). Mas o facto é que não há uma resposta clara a esta questão.

 

Mas sei que cada vez é mais importante mudar o chip das novas gerações. Os jovens – todos nós, na verdade – têm de começar a procurar não um grande emprego para a vida toda mas um pequeno negócio para a vida presente. As pessoas precisam de procurar no mercado uma maneira de se sustentarem a si próprias, em vez de estarem à espera de um emprego que dificilmente há-de chegar. Quando eu era novo usava-se muito esta expressão: “mais vale um mau negócio do que um bom emprego”. Precisamos de voltar a pensar dessa forma. Precisamos desesperadamente de ser um país mais empreendedor.

 

Uma vez estava a conversar com um brasileiro que se espantava como é que os portugueses – uma nação destemida que tinha feito os Descobrimentos, diziam ele – andavam agora patinar, sempre em crises atrás de crises. Eu disse-lhe: “Desculpa lá, mas quem é descendente dos portugueses que fizeram os Descobrimentos és tu. Eu sou descendente dos que ficaram cá.”

 

Oliveira Martins já tratava deste assunto no final do século XIX, da eterna questão do português que é mito melhor lá fora do que cá dentro. Este é um texto de 1891 – vejam lá se vos soa a alguma coisa familiar: “Vai-se a energia, ficam os braços inertes ou mendicantes. A contraprova desta desgraça está em que, no Brasil, o Português é por toda a parte iniciador; e em Portugal, salvas excepções raras ou mínimas, vai a reboque de estrangeiros quando trabalha, reservando a sua iniciativa para a agitação estéril da política [ou para fazer greves gerais, acrescento eu] e a sua arte para angariar empenhos com que alcance um emprego público.”

 

Tudo isto é demasiado conhecido, e assim procedemos durante séculos e séculos, só mudando quando somos encostados à parede – como estamos a ser encostados agora. Para ultrapassar esta situação e quebrar o tal círculo vicioso precisamos desesperadamente de acreditar que somos capazes, que temos dentro de nós aquilo que é preciso para sermos um país melhor e mais justo.

 

Eu sei que isto parece apenas teoria – até mesmo um pouco ingénuo. Mas se a mudança não vier de dentro de cada um de nós, não chegará nunca a vir com certeza. E atenção: esta diferença nem sequer tem necessariamente de ser feita fora do Estado malvado e malévolo. Existem extraordinários funcionários públicos. Existem pessoas que, com os poucos meios que têm à sua disposição, com mais força de vontade do que outra coisa, conseguem alcançar feitos extraordinários. Todos nós conhecemos gente dessa. Simplesmente, por vezes não paramos para pensar tudo aquilo que elas conseguem fazer, nem lhes atribuímos o devido mérito.

 

Entre amanhã e domingo o fado vai com certeza ser considerado Património da Humanidade pela UNESCO. Vocês com certeza têm ouvido as notícias e assistido a todos esses especiais dedicados ao fado. Como tem sido basicamente de fado que eu até agora estive a falar, deixem-me apresentar-vos uma pessoa que não tem sido devidamente falada neste processo, chamada Sara Pereira.

 

A Sara Pereira tem 39 anos e é directora do Museu do Fado desde o final dos anos 90. Era uma miúda de 27 ou 28 anos que trabalhava como historiadora no Castelo de São Jorge quando foi empurrada para o Museu do Fado. Ela nem sequer tinha muita vontade de ir. De fado, ela percebia nada. Contactos dentro do meio tinha nenhuns. De repente viu-se a dirigir um museu em Alfama que era visto de lado pelos fadistas que cantavam nas casas ali ao lado, porque entendiam que o fado não precisava de um museu para nada, que não era coisa de intelectuais, e que ainda por cima era dirigido por uma miúda com idade para ser neta da maior parte deles.

 

Para mais, o meio do fado, como todos os meios pequenos, é um ninho de tricas, rivalidades e maledicência. Pior do que isso: apesar de no final dos anos 90 já começar a surgir uma nova geração de fadistas, de popularidade crescente, o fado permanecia um género que ninguém se dava ao trabalho de estudar. As pessoas, claro, sabiam o que era a canção de Lisboa e conheciam a sua importância mítica, em boa parte devido aos largos ombros de Amália Rodrigues. Mas olhar para o fado como um objecto de estudo, como um género absolutamente fascinante, do qual tínhamos a obrigação e o dever de saber mais, isso não havia quem o fizesse.

 

É que nós, em Portugal, temos de facto uma extrema dificuldade em valorizar aquilo que é nosso. Vivemos embasbacados com o que se faz lá fora, cantamos músicas com letras em inglês de quarta classe, esquecemo-nos de valorizar tradições ancestrais que são só nossas e de mais ninguém. Quem olhar para a história da música portuguesa, descobre coisas tão extraordinárias quanto:

 

- A primeira pessoa que se preocupou com a música tradicional portuguesa foi um senhor nascido na Córsega chamado Michel Giacometti. A ele devemos todas as grandes recolhas etnográficas efectuadas nas décadas de 60 e 70 – sem ele, não teríamos a memórias de milhentas tradições orais que se perderam com o abandono dos campos.

 

- A presença mais marcante de Amália no cinema, aquele momento que a lançou no mundo, foi num filme francês, chamado Les Amants du Tage, de 1955, onde ela surge a cantar “Barco Negro” numa versão inesquecível.

 

- Os primeiros mestrados e doutoramentos sobre fado, que começaram a surgir nos anos 90, são de estudantes estrangeiros, nomeadamente americanos.

 

- O primeiro filme internacional sobre fado – precisamente chamado Fados – foi assinado há quatro anos por um espanhol, Carlos Saura. Correu o mundo todo. Os realizadores portugueses certamente acharam o tema muito aborrecido.

 

Tudo isto, bem vistas as coisas, é um completo absurdo – mais um, dos quais a nossa terra é fértil. Mas, através da acção empenhada de Sara Pereira e da pequena equipa que ela dirige no Museu do Fado, no espaço de uma década muito mudou.

 

Com grande habilidade política e luvas de pelica ela soube levar toda a gente para dentro do Museu do Fado – incluindo os velhos resistentes que no início torceram o nariz à sua presença –, sem distinções elitistas e sem nunca cair nas armadilhas das capelinhas. Melhorou o espólio do museu e patrocinou inúmeras publicações fundamentais (contam-se pelos dedos de uma mão as obras relevantes sobre fado escritas ao longo de todo o século XX), algumas delas de académicos que começaram finalmente a encarar o fado com a atenção que ele merece.

 

Ao mesmo tempo, soube trabalhar com todos os presidentes da câmara, independentemente das suas filiações partidárias, que por sua vez sempre respeitaram o seu percurso e admiraram o seu trabalho. E por último, Sara Pereira liderou todo o processo de candidatura do fado a Património da Humanidade, uma candidatura que entretanto já foi elogiada publicamente pelo comité de especialistas da UNESCO. A par do tango e do flamenco, o fado vai ser considerada uma canção que merece fazer parte do património não de um pequeno país, nem de uma pequena cidade, mas do mundo inteiro.

 

Quem olhar para o que é o fado antes e depois do Museu verá diferenças gigantescas. A competência e a energia de uma jovem que era completamente exterior à área conseguiu tudo isso. Ao mesmo tempo, a sua modéstia e o seu embaraço quando fala com a comunicação social faz com que ela insista em manter-se na sombra, não recebendo nem um décimo dos louros que lhe são devidos. Ela foi a formiguinha persistente e laboriosa. Ainda temos portugueses assim. Ainda temos funcionários públicos assim.

 

Quando este fim-de-semana ouvirem falar de fado, lembrem-se de Sara Pereira – uma funcionária pública que definitivamente não merecia ficar sem dois meses de salário em 2012. Esta pequena história tem apenas o objectivo de demonstrar que, de facto, é possível fazer a diferença – é sempre possível fazer a diferença –, mesmo dentro da estrutura pesada de uma autarquia como Lisboa.

 

4.     Moral da história.

 

Vocês já terão percebido pelo que disse até aqui que eu acredito que vivemos num momento da nossa história em que não temos duas opções. Para quem, como eu, acredita num Portuga Europeu; para quem, como eu, acredita que o estaremos sempre condenados a ser um país europeu de segunda categoria se algum dia sairmos do euro; neste momento não há dois caminhos. Temos de engolir o óleo de fígado de bacalhau receitado pela troika e aguentar, rezando para que, de facto, melhoremos.

 

O doutor Mário Soares e os seus amigos querem “um novo paradigma”. Eu também gostava de ter um novo paradigma. Se alguém aí na plateia tiver um novo paradigma que permita reduzir o défice do Estado, pagar os salários dos funcionários públicos e ao mesmo tempo manter o nosso nível de vida, chegue-se já à frente, por favor. Porque eu não tenho. E até aparecer um novo paradigma, ou “um novo rumo”, fresquinho e iluminado, nós, em geral, e o senhor Vítor Gaspar, em particular, precisamos de continuar a pagar as contas. Quando eu vinha aqui para Óbidos meti gasolina e tentei pagar na caixa com novos paradigmas, mas o funcionário da Galp insistiu que eu pagasse em euros.

 

Mas apesar de um acreditar que não há outra alternativa se não empobrecermos durante alguns anos, acredito também que seria criminoso desperdiçar esta oportunidade para fazer de Portugal um país melhor.

 

Conta-se que São Paulo ia a caminho de Damasco quando caiu do cavalo – nesse momento, teve uma epifania, mudou de vida e tornou-se o inventor do cristianismo. Já que a troika nos atirou de cima do cavalo, ao menos que aproveitemos para ter a nossa epifania e passar a ser um país mais produtivo, menos clientelar, mais criativo, menos dependente – numa palavra, melhor e mais justo.

 

Esta é a crise de um século, uma crise que uma geração como a minha nunca pensou vir a viver. É também uma oportunidade única de mudança.

 

O problema de quem, como eu, é pai de família e tem três filhos tão pequenos a seu cargo, é que não se pode dar ao luxo de ser cínico, relativista ou apocalíptico. Uma pessoa pode ser tudo isso, mas não quando tem filhos para educar.

 

Aqui sentado, eu posso suspirar e perguntar, como Pôncio Pilatos, o que é a verdade? Posso discutir se o certo e o errado são categorias que fazem realmente sentido no mundo em que vivemos. Posso até chorar no vosso ombro e dizer: “Nós vamos todos morrer! A nossa vida não tem qualquer significado! Somos apenas pó e para o pó iremos voltar!” Mas quando estou a deitar a Carolina, a ajudar a vestir o Tomás ou a dar de comer ao Guilherme, eu tenho de acreditar nalguma coisa. Tenho de saber a diferença entre o “não” e o “sim” e convém que esteja convicto de que ainda há uma distinção entre o que está certo e o que está errado.

 

Há umas semanas caiu o primeiro dente de leite ao Tomás e eu comecei com a história clássica da fadinha dos dentes: “Esta noite colocas o dentinho debaixo da almofada, e amanhã, quando acordares, em vez do dente terás um presente.” O Tomás achou graça à ideia; o Gui, como dorme no mesmo quarto do irmão, ficou cheio de medo da ideia (perguntou-me: “a fada dos dentes é assustadora?” e durante essa noite acordou duas ou três vezes com pesadelos); e a Carolina decidiu desmascarar a ideia.

 

Disse ela, do cimo dos seus sete anos: “A fada dos dentes não existe. São os papás que põem os presentes ao pé da almofada. Uma vez vi-os fazerem isso.” Ela nunca não viu coisa nenhuma, simplesmente começou a ouvir muita coisa na escola. Só que aí fui confrontado com a necessidade de dar uma resposta eficaz à sua objecção, até porque os dois irmãos pequenos estavam ao lado e começavam a olhar-me com um ar de desconfiança. Dizer-lhe “pois é, filha, andámos os últimos anos a gozar contigo – e já agora que estamos em maré de sinceridade, por acaso sabias que o Pai Natal vermelho e branco foi inventado pela Coca-Cola?” era capaz de não ser lá muito boa ideia.

 

Então decidi tramá-la: “Olha, Carolina, sabes que quando os meninos deixam de acreditar na fada dos dentes, a fada dos dentes também deixa de acreditar neles. E nunca mais volta a aparecer.” A Carolina calou-se e ficou a pensar na vida.

 

Voltou a acreditar na fadinha dos dentes? Claro que não. Só que ela sabe que ainda tem alguns dentes de leite na boca e pôs-se a fazer contas de cabeça – porque nos brinquedos que ela encontra de manhã debaixo da almofada a Carolina continua a acreditar muitíssimo. Ou seja, naquele preciso momento a minha filha deixou de acreditar em fadas, mas passou a acreditar nos encantos do capitalismo. 

 

A moral da história é essa: precisamos de acreditar em alguma coisa, e precisamos sobretudo de acreditar que está nas nossas mãos mudar o país em que vivemos, para que quando crescerem a Carolina, o Tomás e o Gui encontrem um país melhor e mais decente do que aquele que eu encontrei.

E se tiver de ser mais pobre, ao menos que seja mais justo.

 

É nisto que não podemos transigir: a fadinha dos dentes morreu, não existe, não podemos continuar mais 20 anos a viver acima das nossas posses. Mas, pelo menos, depois destes sacrifícios todos, ao menos que fiquemos com um país melhor, com mais oportunidades e mais justiça.

 

Não há fada? Não, não há. Então ao menos dêem-nos um capitalismo decente em que acreditar.

 

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3 comentários

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De Vitor Cabeça a 04.01.2014 às 19:25

Mais um excelente texto, ao nível elevadíssimo a que o João nos habitua, tanto aqui como no Pais de 4 e em muitos outros locais.
A esquerda mais canhota gosta de chamar Capitalismo ao que temos, mas era útil que aprendessem o que é o "Capitalismo de compadrio", que é o que realmente impera em muitos dos sectores da nossa economia. Algo muito diferente do Capitalismo. Mas dá-lhes jeito essa confusão intencional.
Abraço de outro "Pior pai do mundo" ;)
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De Anónimo a 06.02.2014 às 00:18

Pai?
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De Teresa Alexandre a 03.01.2014 às 13:23

Ê pá, até que enfim! Finalmente encontrei um português residente em Portugal (eu nao conto, porque vivo na Alemanha há 18 anos) que chama as coisas pelos nomes!
Joao, se eu fosse escritora, tinha escrito exactamente o que tu escreveste sobre a situacao de Portugal.
Apoiadissimo!
Se houvesse mais gente como tu, o país se calhar nao estava na situacao em que está.
E gosto também do que dizes sobre o Mário Soares: é que eu sou do tempo em que esse senhor foi governante e nao me esqueco das m... (peco perdao pela linguagem) que ele fez. Agora vem com um j'accuse! como se nao fosse também culpado do estado da nacao. Apontar o dedo é fácil. Difícil é encontrar solucoes, caramba.

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