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O Papa pôs o pé na poça

por João Miguel Tavares, em 16.12.13

O Papa afirmou numa entrevista ao jornal italiano La Stampa que não se sente ofendido quando lhe chamam marxista, utilizando o seguinte argumento:

 

"A ideologia marxista está equivocada, mas na minha vida conheci muitos marxistas boas pessoas, por isso não me sinto ofendido."

 

Ora, no momento em que o Papa disse isto o Espírito Santo devia estar a almoçar, porque o argumento não tem pés na cabeça. Eu também conheço fascistas amáveis e negacionistas do Holocausto que usam admiravelmente os talheres à mesa e oferecem esmola no metro.

 

Dizer "eu não me sinto ofendido que me chamem marxista porque conheci bons marxistas" é admitir uma separação de planos entre acções individuais e crenças colectivas, que obviamente qualquer um de nós aceita no seu dia a dia (e ainda bem, em nome da tolerância), mas que quando se é Papa (e suponho que ele tenha dado a entrevista na condição de Papa) e pregador, e se defende a coincidência ética de uma coisa com a outra, não se pode fazer com a leveza de quem está a participar numa petiscada ideológica.

 

Quer dizer: pessoas boas e más, no termo estrito da sua acção no quotidiano, há em todo o lado, incluindo dentro da Igreja (muitas). Mas quando um Papa valoriza a falta de coincidência entre o carácter de um indivíduo e a ideologia que ele profere ("não me sinto ofendido"), está a desvalorizar um dos argumentos centrais de uma ética cristã, que é a necessidade de que aquilo em que acredito convergir com aquilo que eu faço.

 

O que Francisco disse foi: o marxismo está errado, mas há bons marxistas, logo não me ofendo que me chamem marxista.

 

Dentro desta lógica, por que não continuar?

 

O fascimo está errado, mas há bons fascistas, logo não me ofendo que me chamem fascista.

 

O islamismo está errado, mas há bons muçulmanos, logo não me ofendo que me chamem muçulmano.

 

O judaísmo está errado, mas há bons judeus, logo não me ofendo que me chamem judeu.

 

Esta economia mata, mas há bons capitalistas, não me ofendo que me chamem capitalista.

 

E por aí adiante.

 

O bom cristão prega a coincidência da sua fé com as suas acções, e à falta de coicidência entre uma coisa e outra chama pecado. Não é preciso ter frequentado a catequese para se saber que o pecado, para um cristão, é uma coisa séria.

 

Donde, convém que neste seu entusiasmo para abraçar toda a gente, Francisco não estique os braços até um ponto em que perca de vista aquele parte da doutrina cristã que fala do caminho, da verdade e da vida.

 

Até porque os marxistas dispensam bem a sua companhia, e o excesso de inclusão é apenas uma forma (bastante irritante, aliás) de paternalismo.

 

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8 comentários

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De Maria Sales a 19.12.2013 às 13:13

O senhor João Miguel Tavares está doido ou é conflituoso.
Um ser humano erra ou muitas vezes não lhe sem as palavras certas... e é natural que isso tenha acontecido quando quis dizer que tem o dom de perdoar e mesmo que aceita não ser perfeito porque ninguém o é perfeito neste Mundo.
Agora denegrir a imagem da pessoa que tem transmitido ao mundo a humildade que não vemos há muito tempo, é mesmo querer ser capa de notícia a todo o custo, chocando quem quer que seja e pensando que está a ser uma grande inteligência.
Talvez tirar um curso de psicologia fosse primeiro caminhoo caminho e de seguida se realmente se sentir com capacidades para avaliar, então, escreve notícias.
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De Cr a 17.12.2013 às 15:14

Duas coisas essenciais para ajudar a interpretar o Papa:
1 - O Papa nunca se ofende. Deve praticar e promulgar o infinito perdão e amar até os seus inimigos.
2- De acordo com a doutrina, não existem "pessoas más". O Homem é bom, porque é feito à imagem e semelhança de Deus. Por isso Jesus se intitulou como "filho do Homem". O mal - isso sim - é que é uma realidade que ultrapassa a existência física de cada homem, e a Igreja de Cristo procura livrar as pessoas do mal, apelando a sua salvação, através do amor.

O Papa não meteu o pé na poça. Deu-nos mais uma lição, que tem de ser entendida sem preconceitos.
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De Maria Sales a 19.12.2013 às 13:39

Concordo consigo .
O senhor João Miguel Tavares é mais um dos que querem aparecer a todo o custo e nem medita no que escreve. É como todo o jornalista ou PAPArazzi que nunca aparecem com notícias boas na comunicação social. O que lhes dá prazer é o negativismo e a podridão mesmo aproveitando para destorcer a realidade.
É pena que essas pessoas não tenham o prazer de nos enviarem pelas nossas portas dentro os milagres de Deus e sim estejam sempre a insistir naquilo que LHE fere o interior.
Lamento muito que este senhor João Miguel Tavares tenha realmente METIDO O PÉ NA POÇA.
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De Pedro a 17.12.2013 às 10:11

Basta ler com atenção o que ele disse... e até ao fim. Porque dizer que não se incomoda com algum atributo que lhe queiram dar é uma coisa, afirmar a canonização do marxismo é outra. E o Papa apenas fez a primeira. (Que ele necessite de umas dicas de comunicação - sobretudo para entender como funcionam os meios de comunicação hoje, viz à viz os aproveitamentos desfazados que fazem - isso sim, concordo!) Fica o texto no original (atenção à última frase):
«L'ideologia marxista è sbagliata. Ma nella mia vita ho conosciuto tanti marxisti buoni come persone, e per questo non mi sento offeso». Le parole che hanno colpito di più sono quelle sull'economia che «uccide»... «Nell'esortazione non c'è nulla che non si ritrovi nella Dottrina sociale della Chiesa. Non ho parlato da un punto di vista tecnico, ho cercato di presentare una fotografia di quanto accade. L'unica citazione specifica è stata per le teorie della “ricaduta favorevole”, secondo le quali ogni crescita economica, favorita dal libero mercato, riesce a produrre di per sé una maggiore equità e inclusione sociale nel mondo. C'era la promessa che quando il bicchiere fosse stato pieno, sarebbe trasbordato e i poveri ne avrebbero beneficiato. Accade invece che quando è colmo, il bicchiere magicamente s'ingrandisce, e così non esce mai niente per i poveri. Questo è stato l'unico riferimento a una teoria specifica. Ripeto, non ho parlato da tecnico, ma secondo la dottrina sociale della Chiesa. E questo non significa essere marxista».
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De Luis Filipe Viegas a 16.12.2013 às 23:37

Belo exercicio de malabarismo jornalistico, porque para se chegar á decomposição do dito pelo Papa e retirar tais conclusões, das duas uma ou se pretende intencionalmente distorcer o que o dito disse ou não entendemos mesmo nada de catolicismo e marxismo. Primeiro porque sou marxista e católico, segundo porque o marxismo defende o fim da exploração e creio que bem o Papa com a sua profunda capacidade conhecimento e vivencia também defende o mesmo, e isso sim se pode retirar das suas palavras quer das que á muito vem proferindo quer nas que foram utilizadas para o texto.
Um abraço de conterraneo forçosamente mais velho porque o conheço de miudo e logo possivelmente mais conhecedor da vida e das suas agruras
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De J.Viegas a 16.12.2013 às 21:06

Todo este artigo se resume à última frase. Confundir inclusão com paternalismo irritante é uma marca característica das igrejas protestantes. E ajuda a explicar templos vazios e a expressão diminuta - ou nula - que têm na sociedade.

O autor reflete de forma bastante clara a posição das referidas igrejas: casulos, bem ordenados e bem cantantes, com critérios rigorosos no direito de admissão e alinhados com movimentos de direita e extrema-direita dos Estados Unidos.

Obrigado pelos comentários abertos
J.Viegas

P.S. Não posso com o marxismo nem a pau.
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De Nicolau Pinto Coelho a 16.12.2013 às 20:19

Caro João Miguel Tavares, :)

O Papa Francisco não pode estar apenas a dizer que não se ofende quando os outros se equivocam em relação a ele?

E não considerará ele os "bons marxistas" aqueles que eram inconsequentes com essa convicção? Pode estar a referir-se a pessoas que pensavam ser marxistas, não o sendo na prática.

Não estará também ele a dizer que ser-pessoa é mais do que ser seguidor de uma ideologia ou partido? E que se pode ser uma grande pessoa, na sua maior parte não consequente com o marxismo, e depois ter uma avaliação das ideologias equivocada*, que não tem muitas consequências, e comparada com o que a pessoa é na sua totalidade, não têm relevância?
Isto porque o marxismo é uma ideologia fundamentalmente materialista, logo, à partida mais contingente do que aquilo que ele acredita que toda a pessoa é: um ser espiritual e com sede de Deus e de Amor.

Ser cristão é algo que ontologicamente nos compromete por inteiro, mais, vai além de nós mesmos; ser marxista (ou seguidor de qualquer outra ideologia materialista) é apenas uma racionalização (de duvidosa qualidade).

*como qualquer outra avaliação parcelar

Cumprimentos e parabéns pelos seus textos e intervenções que muito aprecio.
Nicolau Pinto Coelho
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De Anónimo a 16.12.2013 às 16:22

Não entendo bem o seu "desentendimento" com o Papa! Imagino que o que ele quereria salvaguardar seria o facto de como o Marxismo não aceitar a religião, ele se fosse seguidor de Marx, não poderia crer em Deus, o que para ele seria motivo de ofensa.
É a minha ideia...

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